sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O Lobisomem Alfaiate


Desde que vim trabalhar no Edifício Tijucas ouço a história do Lobisomem Alfaiate. De tantas, é a minha favorita com certeza.
Eu achei que tivesse sido Zezinho, mas depois descobri que foi JC que viu o bicho – fuçando no lixo da Americanas.
Falou que ele usava um casaco todo remendado e calça amarrada com corda. Quando notou sua presença, rosnou e bateu as duas orelhas como se fossem tamancos. Os olhos vermelhões – dois semáforos. Depois correu nas quatro patas em direção a Galeria, mas ao invés de atravessá-la, subiu as escadas. JC correu até a tela de segurança e viu apenas um sujeito (ou algo) em pé, nas escadarias.
Às vezes eu sento com o JC e o Carlinhos no Kibe da Boca, para conversar sobre as lendas do prédio. E eles acham que o lobisomem durante o dia, trabalha como alfaiate. Porque nas semanas de lua cheia, há sempre nacos de tecido e pedaços de fita métrica ensanguentados, no lixo.
O lado bom disso, se for mesmo verdade, é que o lobisomem pode consertar as próprias roupas, quando rasgam na transformação.
Certa noite eu escutei uivos ecoando no duto do banheiro. (Nós apelidamos este efeito de “banheirofone”). Não lembro se era noite de lua cheia. E também não liguei muito porque achei que vinham da “casa de massagem” no andar de baixo. 
Do banheiro dá para ouvir perfeitamente o que falam nos outros andares e os uivos pareciam bem próximos!
Poxa, é muito azar eu nunca ter visto nada. Tanto tempo trabalhando aqui.  
O JC me contou que a gaveta da lixeira do sexto andar está toda arranhada, como se fosse unha de animal. Preciso ir lá ver e tirar uma foto.
Fiz até um desenho de como imagino o lobão. Na minha cabeça, deve ser grisalho, porque a maioria dos alfaiates são senhores.
De vez em quando subo o elevador acompanhado de seres estranhos. Fico reparando se são peludos ou se vestem roupas de tamanho maior. Têm um sujeito, que sempre reparo, que usa paletó tão largo, que não é possível ver sua mão – apenas os dedos, saindo da manga. Estilo Didi Mocó. Sempre no Café Avenida ou no Restaurante Quallitá.
Mas tem outro sinistro também, do quinto ou sexto andar, que usa roupas largas e costeletas. Às vezes ele senta num banco da Osório e acende cachimbo. Certa vez o vi imprimindo mapas e imagens no Xerox e, quando reparei melhor, era um pôster russo, bem antigo, da peça “Pedro e o Lobo”.
Já devo ter cruzado diversas vezes com o Lobisomem na galeria. Quem sabe até já levei um paletó ou calça para ele consertar.
O Zezinho conta uma história engraçada – e daí acho que já é invenção – que outros lobisomens trazem roupas para ele arrumar. Porque O bicho costura tão bem, tão bem, que a peça resiste e quase não rasga durante as transformações.

 (16/08/13)

sábado, 8 de junho de 2013

Cães de Asnières, Algas Verdes e Britânia



O fato de participar dos encontros de desenhistas do “Croquis Urbanos” – que retratam Curitiba, me fez voltar a observar e curtir a cidade.
Enquanto desenho, percebo as minúcias. Cornijas, parapeitos, frontões, colunas, balaustradas... Detalhes que passam sempre despercebidos pelo olhar mero contemplativo.
E agora, ao flanar pelas ruas, fico conjecturando que construção pode ser esboçada. Algo que eu não fazia desde a época que estudei arquitetura na PUC. Aliás, foi o Italo Calvino com seu livro “As Cidades Invisíveis” que catapultou em mim o olhar urbano esmiuçador. E depois também “Palomar” e “Marcovaldo ou as Estações da Cidade”, do mesmo autor.
Pesquisando sobre a prática de croquisar “in loco”, “Urban Sketchers” e diários de viagem, descobri que em 1910, existiu um grupo chamado “Cães de Asnières”, que fez a mesma coisa na Curitiba do passado. Fizeram um belíssimo levantamento visual dos casarões, praças e da cidade que crescia exponencialmente. Panorâmicas do Batel, com as linhas de bonde correndo sobre amplas avenidas. Terminal do Portão, Alto da Glória e tantos outros.
O primeiro encontro deles foi justamente na inauguração dos portões do Passeio Público, que seguiram as linhas arquitetônicas do portão do Cemitério de Cães de Asnières, de Paris. Inclusive o nome dos croquiseiros foi em homenagem a isto. Me parece que ali mesmo já surgiu a logomarca.
Quem diria! E eu achando que o “Croquis Urbanos” era algo atual e inédito... Que era exclusivo nosso, o mérito de eternizar a urbe.
E ainda existiram outros grupos de desenhistas – os “Algas Verdes” e o “Britânia”, que duraram até a década de cinquenta mais ou menos. São centenas de retratos da urbe. A Biblioteca Pública do Paraná guarda um acervo vastíssimo.
A alcunha engraçada do “Algas” se deve em virtude a sede do grupo ser na Água Verde – nome decorrente do grande número de algas do ribeirão que era afluente do Rio Belém e passava na área. Hoje já está canalizado. Os “Algas” usavam uma logomarca muito pitoresca, de uma planta com diversos materiais na ponta de suas folhas, como se fossem tentáculos – um pincel, um bico de pena, um lápis e uma caneta. (Como eu gosto do design daquela época!)
Já os “Cães” e “Britânia”, símbolos mais austeros – o portal do cemitério de cães francês e o clássico brasão do Britânia Sport Club – com faixas brancas e vermelhas.
O Britânia Sport Club foi também um antigo clube de futebol de Curitiba, fundado em 1914. Nas décadas de 10 e 20 foi considerado o melhor time do estado, sendo campeão paranaense por várias vezes. Depois o clube parou com o futebol profissional. Mas as atividades no clube, como arte e outras frentes continuaram por mais tempo. A sede do time de futebol ficava à Avenida Comendador Franco (também conhecida por Avenida das Torres). Mas havia também a sede “urbana”, que ficava em frente à Praça Eufrásio Correa, na Lourenço Pinto. Sei disso porque meu tataravô Francisco de Marino foi presidente do clube naquela época e era minha tataravó Alzira Bassetti que fritava os pastéis das festas e encontros de jogadores e demais sócios. Aconteciam direto e eram, me parece, abertos ao público.
Minha mãe tirava sarro de minha vó dizendo que ela nasceu quente, porque a barriga da tata Alzira ficava rente à banha do pastel todos os dias. Hehe.
O clube oferecia diversos cursos para a sociedade e um deles, o de desenhos urbanos, que os italianos chamavam de “Veduta”. E os croquiseiros, apelidados de “vedutistis”, termo italiano que em português significa observadores.
Meu tios Nino e Otávio, irmãos de Alzira, eram membros do grupo dos “vedutistis” do Britânia. Lembro bem de uma aquarela do tio Otávio na parede da casa de minha Tia Lola, que foi casada com ele. Uma arte linda, da Igreja Bom Jesus. Emoldurada com paspatur branco.
Já os desenhos do tio Nino eu nunca vi. Mas me disseram que ele na verdade não era bom desenhista, e era o tio Otávio que o arrastava para os encontros. O Nino gostava é de fumar e conversar com o povo. Passava o evento todo pilando fumo no cachimbo, baforando nuvens de baunilha e caminhando entre os cavaletes.
Eu, inclusive, conheci a coleção de cachimbos na parede dele. Todos organizados num enorme quadro, dispostos lado a lado. Tinham cachimbos de todos os tipos – billiard, apple, bent apple, calabash, bulldog, straight, churchwardenvolcano... Incríveis!
Penso que se eu tivesse vivido nessa época, ou se o Britânia existisse até hoje, eu seria membro desse clube. Talvez seja por isso que inconscientemente prefira os brasões com tons de vermelho e odeie as escuderias de cor verde.  
O livro que pesquisei mostra diversos desenhos destes coletivos – a bico de pena e lápis, de construções como as casas projetadas por Frederico Kirchgässner, Edifício Moreira Garcez, Praça Rui Barbosa. E mais para frente, a arquitetura do Lolô Cornelsen e Vilanova Artigas.
Inclusive encontrei fotos muito legais, dos desenhistas reunidos, registrando eventos, como o lançamento do primeiro bonde elétrico belga da marca Les Ateliers Métallurgiques. E mais recente – construção do Paço da Liberdade, em 1948. São muitos desenhos! Chegavam a expor todas as pinturas sobre o gramado da Praça Generoso Marques.


Entretanto, os croquis que achei mais curiosos foram dois edifícios, na Cinelândia. Um deles é um predinho baixo art decó entre o edifício Eloisa (onde ficava o Cine Ópera) e a Casa Marselha. Não tem nem três andares, bem discreto e obscuro. Com frontões lindíssimos, geométricos formando um rosto. O outro, também baixo, do outro lado da quadra, ao lado do Cine Arlequim. Estas duas construções não aparecem em nenhuma das fotos da área. Procurei inclusive em fotos de diferentes épocas. O art decó do primeiro lembra o estilo arquitetônico de Walter Gropius, o fundador da escola alemã Bauhaus. Mas não faz sentido algum que um projeto dele tenha sido construído em Curitiba e o outro diminuto, da Cândido Lopes a mesma coisa, porém com formas mais orgânicas que remetem ao art nouveau. Suas sacadas curvas parecem se abraçar às trepadeiras, como se ele estivesse encrustado na parede do edifício ao lado. Totalmente assimétrico, com janelas e portas torcidas. Os corrimões dos parapeitos parecem longos tentáculos e a escadinha da entrada, completamente dominada por musgo, leva o visitante a um acesso mais elevado. Neste aspecto – gráfico - os dois prédios são opostos, estando também, em pontos opostos da mesma quadra.
Não posso crer que os croquiseiros (ou “vedutistis”) inventaram dois edifícios. Ou que teriam feito isso para se divertir com os historiadores futuros. Parece-me mais um golpe do destino, que impediu que seus ângulos fossem clicados.
Por outro lado, é inconcebível que dois prédios na área mais importante da cidade, não tenham sido nunca fotografados. Continuo procurando imagens até hoje.
De qualquer forma, os desenhos estão assinados por integrantes do “Cães de Asnières” e não encontrei versões dos prédios pelos croquiseiros dos outros grupos.
Se eles realmente criaram estes dois edifícios, podem muito bem ter feito a mesma coisa com outros. Ou fantasiado casas. Seria como se parte da Curitiba do passado que conhecemos tivesse sido criada por estes desenhistas.
Fiquei tão obcecado por estes caras, que resolvi desenhá-los. Propus ao nosso grupo Croquis Urbanos que fizéssemos o Passeio Público e contei a história dos antigos a eles.
Como não há registro de quem exatamente foram, conjecturamos senhores chapeludos encasacados, elegantes, equipados com jogos de tinta em penais de madeira, vestidos de paletó e suspensórios, equilibrados sobre finas bengalas.
Sentamos de frente para o portal do Passeio Público, olhando a cidade de dentro para fora. Marconi e Wagner com seus indefectíveis bancos portáteis. Reinoldo também. Cassio e Gustavo mais adiante, encontraram outros pontos de vista.  Depois chegaram Simon, Amir, Lia, Fernanda, Luciana, Cesar, José, Sueli, Anderson, João Paulo, Ingra, Letícia, Raquel, Juliana, Cleverson, Bela...
Esbocei os fantasmas com cavaletes de madeira posicionados em direção ao portal. Imaginei meu tio Nino (do Britânia), caminhando entre os desenhistas dos outros grupos, com um maravilhoso cachimbo (praticamente senti o perfume). Deviam ser todos amigos, afinal.
O portão nada mais é do que uma passagem no tempo. De um lado estão os Algas Verdes, Asnières, Britânia e do outro, os Croquis Urbanos.
Se fecho os olhos, consigo ouvir os cães franceses latindo. 



(30/05/13)


terça-feira, 28 de maio de 2013

Noite Azul


É quase meia-noite quando um sujeito de barbas grisalhas e cabelos longos presos por elástico, passa em frente às esculturas colossais da 19 de Dezembro, em Curitiba.
Noite fria, porém agradável, destas que permitem andar ao léu – desde que esteja bem agasalhado, buscando inspiração para os problemas. No caso deste pobre escritor, o dilema é o final de uma crônica.
Devidamente aquecido por um colete grosso e camisa de manga comprida, senta-se num dos bancos aos fundos do painel, rente a Rua Riachuelo, de onde consegue ver a tampa da cabeça do gigante e um naco do obelisco triangular de pedra. Deste lado o painel é composto por um desenho em tons azulados, feito por Poty Lazzarotto, aplicado sobre azulejos.
O escriba retira a tampa da caneta, encosta a ponta sobre o papel branco e conjectura trechos que possa encaixar no final da crônica que o aguarda na tela do notebook, em casa.
Às vezes é preciso escrever qualquer coisa, inventar frases aleatórias. E o final da narrativa surge, tipo tentativa e erro. O ar da noite influi. Andar pelas ruas tortuosas do centro também - dizem. É preciso descolar-se da realidade.
De repente escuta pisadas fortes, como se um batalhão do quartel, ou manifestantes da Guerra do Pente viessem em direção ao centro. Olha para os lados, e não há ninguém além do casal de esculturas de pedra e um gato malhado e tosco que escarafuncha o lixo do Ile de France.
Levanta-se, olha em direção ao breu do Passeio Público, depois caminha até a Cândido de Abreu. Tenta decifrar de que lado vem o barulho.
Ele e o felino observam figuras azuis e colossais – idênticas ao desenho do Poty, chegarem de diferentes lados da cidade. São gigantes de tinta, austeros, com aparência definida por tons e traços. Alguns brancos, sem detalhes.
O gato, que campeava restolhos de peixe no lixo, foge em disparada soltando um miado agudo.
 Assim que o correspondente se aproxima, o antigo personagem desce do mural e cumprimenta o sucessor. Então o novo assume a posição, exatamente no mesmo ponto da composição. Como fazem os cobradores de ônibus, ao trocar de turno durante a jornada. Ou os vigias noturnos.
As novas pinturas são melhores definidas e mais coloridas, como se tivessem sido desenhados há pouco. Enquanto os velhos, gastos pelo sol e com pichos, saltam curvados e cansados. Quase desmaiam.
Alguns novos chegam a cavalo, outros com remos e os missionários empunham grandes cruzes. São bandeirantes, índios, tropeiros... Até mesmo as araucárias são trocadas, carregadas por vários deles.
Enquanto os novos assumem os seus papéis na história dos ciclos históricos e econômicos do Paraná, os antigos marcham em direção a João Gualberto. Feito elefantes pesados, suplantados, migram para outra área.
E o homem, curioso, vai atrás, seguindo a pista de pegadas úmidas e azuladas.
Os gigantes enfastiados ignoram o Passeio Público e caminham a passos lentos em direção ao Colégio Estadual. Mergulham os pés no espelho d´água do Memorial Árabe, na Praça Gibran Khalil Gibran.
Gradativamente diluem o desenho na água, diminuindo de tamanho, até desaparecem completamente na mancha azul que se miscigena ao espelho árabe.
E de repente o escritor fica só, novamente, na imensidão silenciosa do Centro.
Volta até o painel, olha para a composição calada e inerte. Aproxima-se dos rostos, procura um sinal de vida – uma piscadela ou fungada de nariz. Grita, pergunta se o ouvem. Nada. As figuras são tão inertes quanto pinturas de um painel de azulejos.
Senta-se novamente no mesmo banco, de onde vê o cocuruto do homem-nu e um pedaço do obelisco de pedras.
Olha para seu caderno branco, branquíssimo. Encosta a ponta da caneta sobre o papel e extasiado, pensa no que aconteceu.


* * *

Um mês depois, o escritor volta a perambular pela mesma área. Ele mora pertinho – num edifício na Treze de Maio.
Senta-se no mesmo banco da Praça e praticamente no mesmo horário, presencia a cena mais uma vez.
Novos seres azuis surgem, para substituir os desenhos antigos – gastos, sujos e pichados. E outra vez os antigos somem na escuridão do espelho árabe, para silenciar a noite e manter vivo o painel.
O relógio crava: meia-noite.

(28/05/13)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Potypos


“As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas e que todas as coisas escondam uma outra coisa.”
Italo Calvino


“(...) que, para Platão, a entidade do ente se determine como eidos (aspecto, vista) [Aussehen, Anblick], eis a condição historial longínqua, reinando longamente numa velada mediação, para que o mundo tenha podido se tornar imagem.”

Martin Heidegger


Ilustração: Daniel Gonçalves


Eu não faria ideia das pessoas descomunais que viveram em Curitiba, se não fosse um artigo que li numa revista de causos curitibanos, que encontrei num sebo. Aliás, na mesma ocasião comprei um exemplar do “Dança Macabra”, do Stephen King, de 1981. Neste, o mestre analisa filmes, livros, gibis e seriados de horror dos anos 50 aos 80. Um material indispensável para pessoas, que como eu, estão embrenhadas na criação de narrativas de terror.

Achei o artigo da revista – sobre os gigantes, muito inspirador. Escrito por E.S. Scheneider, relata com precisão de detalhes a estatura das figuras que ele define como typos. Curioso que ele não utiliza o termo correto, em latim typus, relativo à tipologia. E indica typos conforme distinções morfológicas. É como se typo fosse um nome e não um termo.

Foram apelidados também de Potypos, Neandertais Paranaenses ou Gigantes Araucárias.  

Scheneider conta que estes gigantes habitaram a cidade durante um curto intervalo de tempo, depois nunca mais foram vistos. Não se sabe se formavam uma família de estrangeiros ou se eram nômades como os ciganos.

Mas o fato é que participaram ativamente na construção da cidade, numa época que o Estado crescia impetuosamente, principalmente por causa do desenvolvimento impulsionado pela cultura cafeeira.

Muito pouco se sabe sobre eles. Moravam na região da Água Verde e Alto da Glória – um tanto afastados do centro e dos trajetos dos bondes.  Trabalhavam comunitariamente, ajudando os pedreiros nas construções. Suas estaturas enormes e mãos amplas os privilegiavam no transporte de pedras e vigas.

Diz que foram muito úteis na construção da Biblioteca Pública e ajudaram a empurrar o vagão artesanalmente construído para a estátua da “Mulher Nua”, que inicialmente foi colocada na frente do Tribunal do Júri. Porém mais tarde, por protestos dos representantes da justiça, mudou-se para a Praça 19 de Dezembro, onde já encontrava-se o “Homem Nu”. Lugar que homenageia a história do Paraná – a data faz referência à emancipação política do Estado, que ocorreu em 1953. As duas esculturas são de autoria de Erbo Stenzel e Umberto Cozzo. Segundo Scheneider, elas simbolizam muito mais que um “olhar alto, em direção ao futuro”, mas uma representação fiel e proporcional destes typos, ou Potypos.

Eram sujeitos de mãos enormes e traços angulosos. Homens de poucas palavras, com rostos expressivos. Narigudos, vestiam-se com trapos de hachura. As mulheres eram ainda mais fortes – algumas puxavam carroças apenas com um dos braços. Eles surgiam sempre com objetos igualmente cavalares. Martelos amedrontadores, picaretas artesanais, pás e alicates. Eram, certamente, pessoas trabalhadoras.

O artigo de Scheneider é baseado principalmente em ilustrações, porque quase ninguém os fotografou. É possível ter uma ideia das proporções, nos desenhos. No principal, um deles segura o relógio da catedral durante uma reforma – auxiliando os pedreiros, enquanto dois outros ajudam a empurrar um bonde elétrico descarrilhado na Rua Barão do Rio Branco.

Noutro desenho, estão centenas de pessoas assistindo a uma corrida de cavalos inaugural no Jockey Clube. Em destaque o Governador Bento Munhoz da Rocha Netto, o prefeito Ney Braga, o Secretário de Saúde Joaquim de Mattos Barreto e outras figuras importantes da época. Logo atrás, em meio ao povo, veem-se pessoas bem altas, destacando-se na arquibancada. Um deles com um chapéu-coco e outro com uma cartola surrada.

Por volta de 1960, a prefeitura teve de intervir porque alguns se envolveram em confusões em bares da região central. Um deles matou um cidadão curitibano no Bar do Tatu, quebrando-lhe o corpo ao meio apenas com as mãos. Para você ver a força que esses caras tinham... E depois uma prostituta foi encontrada morta boiando no lago do Passeio Público. Seu rosto encontrava-se desfigurado, como se tivesse sido atingido por um potente soco. Fora que acabavam destruindo a maioria das portas dos estabelecimentos, principalmente quando bebiam a mais da conta.

O prefeito mandou sancionar uma lei que os impediu de frequentar o centro e trabalhar nas obras. Para isso criaram uma espécie de fundo, como um salário desemprego exclusivo.

Os protestos foram ferinos. Os gigantes sentiram-se discriminados.  Alguns, revoltados, depredaram estações e botaram fogo em bancas de jornal. Um grupo se reuniu em frente ao Palácio Iguaçu, segurando placas que diziam “Não somos monstros” e “Direitos Iguais”.

Porém a negociação não teve sucesso, e o governo condenou-os ao exílio, pelo ato constitucional número 8 e ½. Os Potypos partiram para a violência. Policiais tiveram de contê-los. A revolta ficou conhecida como Gigantomaquia, fazendo menção à guerra dos gigantes da mitologia grega.

Apenas três Potypos eram necessários para virar uma Rural Willys.

Sem condições de trabalho, muitos abandonaram Curitiba em direção ao interior. Carroças e rurais apinhadas de malas, sacolas, caixas e utensílios rumaram em direção ao norte e ao oeste.

Essa retirada, aliás, foi eternizada por uma pintura de H. Martins, um pintor paulista que se mudou para Curitiba por volta de 1954. Eu me lembro de ter visto esse quadro no acervo do Museu Alfredo Andersen, anos atrás.

Foram caçados, no campo, feito gado. Soube de absurdas temporadas de caça aos Potypos e matadores especialistas em armadilhas de gigantes.

Outra pintura de H. Martins ilustra uma cabeçorra fixada em moldura na parede. E, num outro detalhe, a pele transformada em tapete.

A matéria termina com depoimentos de leitores, que, convidados pela revista, relataram experiências e causos:


“(...) não eram tão altos como dizem. Tinham no máximo dois metros e meio. Tratava-se apenas de pessoas altas. Não há nada de errado nisso.”

“Minha prima disse que eles eram vikings e vieram da Nova Zelândia. Por isso os cabelos ruivos. Falou também que eles comiam carne de javali e bebiam sangue de bode.”

“Uma vez eu vi um deles, na beira do rio Barigui, quebrando um cabrito ao meio usando apenas as mãos. Um ser humano normal não é capaz de uma coisa dessas.”

“(...) os móveis dentro da casa eram maiores que o normal, como se fossem especialmente fabricados. Eu quase não consegui enxergar o tampo da mesa. As madeiras eram pregadas de maneira tosca. Os tamanhos eram proporcionais a eles. Percebi a diferença principalmente na escada, pois eu tinha de fazer um esforço grande para subir os degraus.”

“A casa toda exalava um cheiro nauseabundo horrível. Fedor de cemitério. Mas eu fiquei mesmo assustado quando vi na cozinha uma cesta repleta de pedaços de seres humanos. Braços, pernas, crânios...”

“(...) eu voltava do cinema quando me deparei com um deles, na esquina da São Francisco. Ele estava tão bêbado que quase não conseguia se equilibrar. Passou por mim, andando torto, equilibrando-se nos postes e aí desabou sobre um carrinho de feno. O veículo se espatifou com seu peso e foi feno para todo lado. A roda desceu em direção à Riachuelo. Imagine só a quantidade de cachaça que é necessária para embebedar um sujeito daquele tamanho...”

“Eu conheço uma costureira que cosia as roupas deles. Ela me disse que todas as peças tinham de ser exclusivas, e os braços chegavam a medir 120 centímetros.”

“(...) e a casa ainda está lá. Fica numa estrada de terra que cruza a Presidente Kennedy, perto da Igreja Ucraniana. Ela é de madeira, tão alta e disforme que parece uma capela. As janelas são tortas e os lambrequins possuem formatos muito estranhos.”

“Contaram-me que uma guria do Guabirotuba engravidou de um deles e acabou morrendo no parto. Mas o nenê, que nasceu com quase 6 kg e 80 cm de comprimento, sobreviveu. Não sei se o pai foi embora ou se vive, no bairro, escondido até hoje.”
“(...) não engulo aquela história de que um morador das imediações do Matadouro Municipal foi perseguido e pisoteado acidentalmente por bois. Que eu saiba tinha vários Potypos que moravam nas redondezas.”

“Lembro que na reconstrução da Praça Osório, enquanto os jardineiros da prefeitura aravam a terra dos canteiros, os maiores seguravam e implantavam as pequenas árvores. Hoje em dia elas já estão enormes e quase não dá para perceber o desenho geométrico dos petit-pavets.”

“(...) o repuxo era abaixo do nível do solo. Apenas vinte anos depois que foi instalado o coreto e o relógio. Os typos ajudaram a carregar os ripamentos e os caibros. Mas o relógio nunca chegou a funcionar.”

“(...) a carroça do colono passou por cima da criança e se o grande homem não tivesse tomado o controle das rédeas dos cavalos, a roda a teria esmagado! Você precisava ver o quanto a mãe da menina ficou agradecida. Aconteceu ali no Largo da Ordem.”

“Eu lembro que, numa das enchentes da Barão do Rio Branco, muitos deles ajudaram a desencalhar os carros. A rua virou um lamaçal. Munidos de cordas e correntes muito grossas, os gigantes tiraram os veículos do lodo.”

“(...) ajudavam a carregar as crianças. Seus corpos eram tão pesados que a correnteza não os arrastava. A Praça Zacarias ficou completamente alagada. A lama invadiu até mesmo a casa dos maçons.”

 “(...) eu estava lá no meio da Guerra do Pente1. Foi um fuzuê danado. Ninguém entendia o que estava acontecendo. As pessoas arremessavam pedras nas vitrines e chutavam as grades. Só depois fiquei sabendo que foi tudo por causa de um comerciante que não quis emitir uma nota. Vi alguns gigantes no meio da multidão, tentando apartá-los, separando os briguentos.”

“(...) e as mulheres, como eram muito fortes, carregavam as caixas de pentes, no alto, para que os vândalos não os alcançassem. No final do dia, ao atravessar a rua, via-se pentes de todos os formatos e cores, espezinhados, quebrados, na boca dos bueiros. Uma dó!”

 “Me falaram que eles foram morar lá pros lados de Ibaiti e Cornélio Procópio. Agora não lembro se ela disse Ibaiti ou Abatia.”

“Uma parente minha de Irati disse que foram vistos por lá, mas que caminham feito mendigos e dormem sob marquises das igrejas e supermercados. Falou que não há nada de assustador neles, que são até bem prestativos e alguns trabalham na lavoura.”

“Eu nunca vi gigante nenhum caminhando pela cidade. Para mim isso tudo é ficção. É como aquele causo de alienígenas que passou no rádio, e depois divulgaram que se tratava de uma história criada por um cineasta estadunidense.”

“(...) e só o que resta são desenhos. Pinturas borradas, rabiscos disformes. Acho muito estranho que não haja uma fotografia sequer. Custo a acreditar que algo aconteceu se não foi fotografado.”




1 - No dia 8 de dezembro de 1959, o Subtenente Antônio Tavares, da Polícia Militar do Estado do Paraná, comprou um pente pelo valor de quinze cruzeiros e exigiu o comprovante do comerciante libanês Ahmed Najar. Mas aí houve uma discussão. O comerciário negou-se a emitir a nota porque o valor era muito baixo e ainda fraturou a perna do oficial. Assim começou o conflito conhecido como "A Guerra do Pente".




(09/04/13)

sábado, 6 de abril de 2013

Orelha de Burro

dedicado a Haraldo Hauer Freudenberg

Ilustração: Daniel Gonçalves

Estou na Confeitaria das Famílias. São tantas opções de doces que nunca sei qual escolher.
Mentira. Na verdade sei exatamente o que quero. Minha guloseima favorita é a “Orelha de Burro”.
Eu amo este doce, mas não vou pedi-lo.
Não acho justo que uma sobremesa magrinha, desprovida de cremes fabulosos e coberturas gigantes, custe o mesmo preço que as outras.
Todos os doces na Confeitaria das Famílias custam o mesmo valor.
Eu sempre venho aqui pensando em comer a “Orelha de Burro”, mas aí me auto-saboto, tentando acreditar que gosto de outros doces, tanto quanto à “Orelha de Burro”, e peço outro qualquer, com mais cobertura.
Só para valer a pena o preço.
Como qualquer outro doce, pensando na orelha.
Do meu lado, uma garota morena com franja escolhe uma sobremesa também. Ela está de sandália, mostrando os pés e os seus pés são bem bonitos. Não usa esmalte.
O segredo do pé bonito é o formato da unha do dedão. Se for um dedão grande, maior que os demais e a unha acompanhar este desenho, o pé torna-se interessante.
Peço meu doce e subo no salão de chá, que fica no segundo andar. A garçonete já sabe que deve entregar lá. Sou cliente assíduo.
Gosto de sentar na mesa perto do parapeito, principalmente quando venho a trabalho.
Aqui tem um bom ângulo para fotografar, além de que posso encaixar a lente da câmera entre os vãos do parapeito.
Tiro a câmera da mochila, fotometro e deixo tudo preparado.
A garçonete traz o doce que eu escolhi – um folheado de maçã com creme.
Alguns minutos depois, vejo meu tema de trabalho chegando na porta lá embaixo.
Chamo de tema o “pobre” que estou seguindo. O alvo da vez.
Fui pago para segui-lo e fotografá-lo com a possível amante.
E nisso sou bom! Consigo fotografar até o papa sem que ele perceba. E tenho os melhores equipamentos para isso!
Esta câmera que estou usando hoje, por exemplo, uma Canon 7D, grava em full HD.
Posso filmar o miserável em tamanho de cinema se eu quiser.
Mas não é caso. Só preciso de umas imagenzinhas dele flertando com a amante.
É que é assim: enquanto eu sigo o rapazote por aí, recebo uma grana por semana, mas que é curta. Se eu consigo fotografar uma cena mais comprometedora como um beijo, por exemplo, daí meu cliente paga o valor total.
E estou precisando de dinheiro. O aluguel está atrasado desde o dia cinco.
Mordo o folheado.
Não está tão fresco.
Devia ter pedido outro.
Chega a amante. Uma bruta loirona usando óculos escuro, jaqueta dourada e calça rosa choque. Nada discreta. Estilo perua do Batel Soho.
Bato umas chapas.
Dou mais umas mordidas no doce.
O movimento no primeiro andar é intenso.
Chega um grupo de velhinhas com camisetas iguais. Devem ser de uma ONG pró alguma coisa.
Pombos invadem o salão e voam causando estardalhaço.
As velhinhas se assustam.
A garçonete tem que ir até lá com uma vassoura para espantá-los.
Termino de comer o folheado.
A garçonete volta e me pergunta se quero mais um doce.
Penso na “Orelha de Burro”, mas peço uma bomba de chocolate. O valor é o mesmo. Todos os doces são o mesmo preço. Que droga!
Peço também um café preto.
Os dois namoradinhos ficam lá embaixo, numa mesa mocada bem pros fundos. A loira pede alguma coisa, o rapaz bebe uma Coca-cola.
Percebo que a moça do pé bonito sentou numa mesa ao meu lado. Viro a câmera discretamente na direção dela e aproveito para fotografar seus pés enquanto ela manda uma mensagem no celular. Sou discreto pacas.
Aí chega minha bomba e o café.
A xícara de café é tão grande na Confeitaria que eu chamo de balde. Balde de café.
Se o sujeito não tá acostumado, fica sem dormir até o dia seguinte.
Mas eu bebo café pra caralho, pra mim não faz mais efeito.
Dou uma mordida na bomba de chocolate. Delícia. Bomba de chocolate é quase tão bom quanto “Orelha de Burro”.
Olho em direção ao rapazote e vejo que ele pega na mão da sirigaita.
Opa!
Click!
Não perco nenhuma cena. É meu cachê que está em jogo.
Entre uma bebericada e outra no balde, fotografo.
Surge um indivíduo vestido de Homem-aranha lá embaixo.
Conheço o figura. Ele é “estátua-viva” da região da Boca Maldita, em frente ao MacDonald´s.
Bizarro ver o Homem-Aranha escolhendo uma guloseima.
Volto a focar no casal e vejo que eles se beijam na boca!
Click!
Sensacional! Era isso que eu precisava.
Uma imagem totalmente comprometedora como esta. Ninguém poderá duvidar que trata-se de sua amante, afinal.
Maravilha!
Desligo a câmera e a guardo na mochila. Não há mais nada a fazer por hoje.
Missão cumprida.
Eles ainda se beijam por mais tempo.
O Homem- Aranha arregaça a máscara para tomar um Chocomilk usando canudinho.
A garota do pé bonito levanta-se e vai embora.
As coisas acontecem rapidamente na Confeitaria. A configuração do lugar se modifica de trinta em trinta minutos.
Sinto-me tão aliviado em saber que consegui fotografar a cena, e que em breve receberei meu pagamento, que cogito até em comer uma “Orelha de Burro”.
Mas não!
Não acho justo que uma sobremesa magrinha, desprovida de cremes fabulosos e coberturas gigantes, custe o mesmo preço que as outras.
Levanto, desço as escadas, pago minha conta e vou embora.

(06/04/13)