terça-feira, 28 de maio de 2013

Noite Azul


É quase meia-noite quando um sujeito de barbas grisalhas e cabelos longos presos por elástico, passa em frente às esculturas colossais da 19 de Dezembro, em Curitiba.
Noite fria, porém agradável, destas que permitem andar ao léu – desde que esteja bem agasalhado, buscando inspiração para os problemas. No caso deste pobre escritor, o dilema é o final de uma crônica.
Devidamente aquecido por um colete grosso e camisa de manga comprida, senta-se num dos bancos aos fundos do painel, rente a Rua Riachuelo, de onde consegue ver a tampa da cabeça do gigante e um naco do obelisco triangular de pedra. Deste lado o painel é composto por um desenho em tons azulados, feito por Poty Lazzarotto, aplicado sobre azulejos.
O escriba retira a tampa da caneta, encosta a ponta sobre o papel branco e conjectura trechos que possa encaixar no final da crônica que o aguarda na tela do notebook, em casa.
Às vezes é preciso escrever qualquer coisa, inventar frases aleatórias. E o final da narrativa surge, tipo tentativa e erro. O ar da noite influi. Andar pelas ruas tortuosas do centro também - dizem. É preciso descolar-se da realidade.
De repente escuta pisadas fortes, como se um batalhão do quartel, ou manifestantes da Guerra do Pente viessem em direção ao centro. Olha para os lados, e não há ninguém além do casal de esculturas de pedra e um gato malhado e tosco que escarafuncha o lixo do Ile de France.
Levanta-se, olha em direção ao breu do Passeio Público, depois caminha até a Cândido de Abreu. Tenta decifrar de que lado vem o barulho.
Ele e o felino observam figuras azuis e colossais – idênticas ao desenho do Poty, chegarem de diferentes lados da cidade. São gigantes de tinta, austeros, com aparência definida por tons e traços. Alguns brancos, sem detalhes.
O gato, que campeava restolhos de peixe no lixo, foge em disparada soltando um miado agudo.
 Assim que o correspondente se aproxima, o antigo personagem desce do mural e cumprimenta o sucessor. Então o novo assume a posição, exatamente no mesmo ponto da composição. Como fazem os cobradores de ônibus, ao trocar de turno durante a jornada. Ou os vigias noturnos.
As novas pinturas são melhores definidas e mais coloridas, como se tivessem sido desenhados há pouco. Enquanto os velhos, gastos pelo sol e com pichos, saltam curvados e cansados. Quase desmaiam.
Alguns novos chegam a cavalo, outros com remos e os missionários empunham grandes cruzes. São bandeirantes, índios, tropeiros... Até mesmo as araucárias são trocadas, carregadas por vários deles.
Enquanto os novos assumem os seus papéis na história dos ciclos históricos e econômicos do Paraná, os antigos marcham em direção a João Gualberto. Feito elefantes pesados, suplantados, migram para outra área.
E o homem, curioso, vai atrás, seguindo a pista de pegadas úmidas e azuladas.
Os gigantes enfastiados ignoram o Passeio Público e caminham a passos lentos em direção ao Colégio Estadual. Mergulham os pés no espelho d´água do Memorial Árabe, na Praça Gibran Khalil Gibran.
Gradativamente diluem o desenho na água, diminuindo de tamanho, até desaparecem completamente na mancha azul que se miscigena ao espelho árabe.
E de repente o escritor fica só, novamente, na imensidão silenciosa do Centro.
Volta até o painel, olha para a composição calada e inerte. Aproxima-se dos rostos, procura um sinal de vida – uma piscadela ou fungada de nariz. Grita, pergunta se o ouvem. Nada. As figuras são tão inertes quanto pinturas de um painel de azulejos.
Senta-se novamente no mesmo banco, de onde vê o cocuruto do homem-nu e um pedaço do obelisco de pedras.
Olha para seu caderno branco, branquíssimo. Encosta a ponta da caneta sobre o papel e extasiado, pensa no que aconteceu.


* * *

Um mês depois, o escritor volta a perambular pela mesma área. Ele mora pertinho – num edifício na Treze de Maio.
Senta-se no mesmo banco da Praça e praticamente no mesmo horário, presencia a cena mais uma vez.
Novos seres azuis surgem, para substituir os desenhos antigos – gastos, sujos e pichados. E outra vez os antigos somem na escuridão do espelho árabe, para silenciar a noite e manter vivo o painel.
O relógio crava: meia-noite.

(28/05/13)