sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O Lobisomem Alfaiate


Desde que vim trabalhar no Edifício Tijucas ouço a história do Lobisomem Alfaiate. De tantas, é a minha favorita com certeza.
Eu achei que tivesse sido Zezinho, mas depois descobri que foi JC que viu o bicho – fuçando no lixo da Americanas.
Falou que ele usava um casaco todo remendado e calça amarrada com corda. Quando notou sua presença, rosnou e bateu as duas orelhas como se fossem tamancos. Os olhos vermelhões – dois semáforos. Depois correu nas quatro patas em direção a Galeria, mas ao invés de atravessá-la, subiu as escadas. JC correu até a tela de segurança e viu apenas um sujeito (ou algo) em pé, nas escadarias.
Às vezes eu sento com o JC e o Carlinhos no Kibe da Boca, para conversar sobre as lendas do prédio. E eles acham que o lobisomem durante o dia, trabalha como alfaiate. Porque nas semanas de lua cheia, há sempre nacos de tecido e pedaços de fita métrica ensanguentados, no lixo.
O lado bom disso, se for mesmo verdade, é que o lobisomem pode consertar as próprias roupas, quando rasgam na transformação.
Certa noite eu escutei uivos ecoando no duto do banheiro. (Nós apelidamos este efeito de “banheirofone”). Não lembro se era noite de lua cheia. E também não liguei muito porque achei que vinham da “casa de massagem” no andar de baixo. 
Do banheiro dá para ouvir perfeitamente o que falam nos outros andares e os uivos pareciam bem próximos!
Poxa, é muito azar eu nunca ter visto nada. Tanto tempo trabalhando aqui.  
O JC me contou que a gaveta da lixeira do sexto andar está toda arranhada, como se fosse unha de animal. Preciso ir lá ver e tirar uma foto.
Fiz até um desenho de como imagino o lobão. Na minha cabeça, deve ser grisalho, porque a maioria dos alfaiates são senhores.
De vez em quando subo o elevador acompanhado de seres estranhos. Fico reparando se são peludos ou se vestem roupas de tamanho maior. Têm um sujeito, que sempre reparo, que usa paletó tão largo, que não é possível ver sua mão – apenas os dedos, saindo da manga. Estilo Didi Mocó. Sempre no Café Avenida ou no Restaurante Quallitá.
Mas tem outro sinistro também, do quinto ou sexto andar, que usa roupas largas e costeletas. Às vezes ele senta num banco da Osório e acende cachimbo. Certa vez o vi imprimindo mapas e imagens no Xerox e, quando reparei melhor, era um pôster russo, bem antigo, da peça “Pedro e o Lobo”.
Já devo ter cruzado diversas vezes com o Lobisomem na galeria. Quem sabe até já levei um paletó ou calça para ele consertar.
O Zezinho conta uma história engraçada – e daí acho que já é invenção – que outros lobisomens trazem roupas para ele arrumar. Porque O bicho costura tão bem, tão bem, que a peça resiste e quase não rasga durante as transformações.

 (16/08/13)