terça-feira, 9 de abril de 2013

Potypos


“As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas e que todas as coisas escondam uma outra coisa.”
Italo Calvino


“(...) que, para Platão, a entidade do ente se determine como eidos (aspecto, vista) [Aussehen, Anblick], eis a condição historial longínqua, reinando longamente numa velada mediação, para que o mundo tenha podido se tornar imagem.”

Martin Heidegger


Ilustração: Daniel Gonçalves


Eu não faria ideia das pessoas descomunais que viveram em Curitiba, se não fosse um artigo que li numa revista de causos curitibanos, que encontrei num sebo. Aliás, na mesma ocasião comprei um exemplar do “Dança Macabra”, do Stephen King, de 1981. Neste, o mestre analisa filmes, livros, gibis e seriados de horror dos anos 50 aos 80. Um material indispensável para pessoas, que como eu, estão embrenhadas na criação de narrativas de terror.

Achei o artigo da revista – sobre os gigantes, muito inspirador. Escrito por E.S. Scheneider, relata com precisão de detalhes a estatura das figuras que ele define como typos. Curioso que ele não utiliza o termo correto, em latim typus, relativo à tipologia. E indica typos conforme distinções morfológicas. É como se typo fosse um nome e não um termo.

Foram apelidados também de Potypos, Neandertais Paranaenses ou Gigantes Araucárias.  

Scheneider conta que estes gigantes habitaram a cidade durante um curto intervalo de tempo, depois nunca mais foram vistos. Não se sabe se formavam uma família de estrangeiros ou se eram nômades como os ciganos.

Mas o fato é que participaram ativamente na construção da cidade, numa época que o Estado crescia impetuosamente, principalmente por causa do desenvolvimento impulsionado pela cultura cafeeira.

Muito pouco se sabe sobre eles. Moravam na região da Água Verde e Alto da Glória – um tanto afastados do centro e dos trajetos dos bondes.  Trabalhavam comunitariamente, ajudando os pedreiros nas construções. Suas estaturas enormes e mãos amplas os privilegiavam no transporte de pedras e vigas.

Diz que foram muito úteis na construção da Biblioteca Pública e ajudaram a empurrar o vagão artesanalmente construído para a estátua da “Mulher Nua”, que inicialmente foi colocada na frente do Tribunal do Júri. Porém mais tarde, por protestos dos representantes da justiça, mudou-se para a Praça 19 de Dezembro, onde já encontrava-se o “Homem Nu”. Lugar que homenageia a história do Paraná – a data faz referência à emancipação política do Estado, que ocorreu em 1953. As duas esculturas são de autoria de Erbo Stenzel e Umberto Cozzo. Segundo Scheneider, elas simbolizam muito mais que um “olhar alto, em direção ao futuro”, mas uma representação fiel e proporcional destes typos, ou Potypos.

Eram sujeitos de mãos enormes e traços angulosos. Homens de poucas palavras, com rostos expressivos. Narigudos, vestiam-se com trapos de hachura. As mulheres eram ainda mais fortes – algumas puxavam carroças apenas com um dos braços. Eles surgiam sempre com objetos igualmente cavalares. Martelos amedrontadores, picaretas artesanais, pás e alicates. Eram, certamente, pessoas trabalhadoras.

O artigo de Scheneider é baseado principalmente em ilustrações, porque quase ninguém os fotografou. É possível ter uma ideia das proporções, nos desenhos. No principal, um deles segura o relógio da catedral durante uma reforma – auxiliando os pedreiros, enquanto dois outros ajudam a empurrar um bonde elétrico descarrilhado na Rua Barão do Rio Branco.

Noutro desenho, estão centenas de pessoas assistindo a uma corrida de cavalos inaugural no Jockey Clube. Em destaque o Governador Bento Munhoz da Rocha Netto, o prefeito Ney Braga, o Secretário de Saúde Joaquim de Mattos Barreto e outras figuras importantes da época. Logo atrás, em meio ao povo, veem-se pessoas bem altas, destacando-se na arquibancada. Um deles com um chapéu-coco e outro com uma cartola surrada.

Por volta de 1960, a prefeitura teve de intervir porque alguns se envolveram em confusões em bares da região central. Um deles matou um cidadão curitibano no Bar do Tatu, quebrando-lhe o corpo ao meio apenas com as mãos. Para você ver a força que esses caras tinham... E depois uma prostituta foi encontrada morta boiando no lago do Passeio Público. Seu rosto encontrava-se desfigurado, como se tivesse sido atingido por um potente soco. Fora que acabavam destruindo a maioria das portas dos estabelecimentos, principalmente quando bebiam a mais da conta.

O prefeito mandou sancionar uma lei que os impediu de frequentar o centro e trabalhar nas obras. Para isso criaram uma espécie de fundo, como um salário desemprego exclusivo.

Os protestos foram ferinos. Os gigantes sentiram-se discriminados.  Alguns, revoltados, depredaram estações e botaram fogo em bancas de jornal. Um grupo se reuniu em frente ao Palácio Iguaçu, segurando placas que diziam “Não somos monstros” e “Direitos Iguais”.

Porém a negociação não teve sucesso, e o governo condenou-os ao exílio, pelo ato constitucional número 8 e ½. Os Potypos partiram para a violência. Policiais tiveram de contê-los. A revolta ficou conhecida como Gigantomaquia, fazendo menção à guerra dos gigantes da mitologia grega.

Apenas três Potypos eram necessários para virar uma Rural Willys.

Sem condições de trabalho, muitos abandonaram Curitiba em direção ao interior. Carroças e rurais apinhadas de malas, sacolas, caixas e utensílios rumaram em direção ao norte e ao oeste.

Essa retirada, aliás, foi eternizada por uma pintura de H. Martins, um pintor paulista que se mudou para Curitiba por volta de 1954. Eu me lembro de ter visto esse quadro no acervo do Museu Alfredo Andersen, anos atrás.

Foram caçados, no campo, feito gado. Soube de absurdas temporadas de caça aos Potypos e matadores especialistas em armadilhas de gigantes.

Outra pintura de H. Martins ilustra uma cabeçorra fixada em moldura na parede. E, num outro detalhe, a pele transformada em tapete.

A matéria termina com depoimentos de leitores, que, convidados pela revista, relataram experiências e causos:


“(...) não eram tão altos como dizem. Tinham no máximo dois metros e meio. Tratava-se apenas de pessoas altas. Não há nada de errado nisso.”

“Minha prima disse que eles eram vikings e vieram da Nova Zelândia. Por isso os cabelos ruivos. Falou também que eles comiam carne de javali e bebiam sangue de bode.”

“Uma vez eu vi um deles, na beira do rio Barigui, quebrando um cabrito ao meio usando apenas as mãos. Um ser humano normal não é capaz de uma coisa dessas.”

“(...) os móveis dentro da casa eram maiores que o normal, como se fossem especialmente fabricados. Eu quase não consegui enxergar o tampo da mesa. As madeiras eram pregadas de maneira tosca. Os tamanhos eram proporcionais a eles. Percebi a diferença principalmente na escada, pois eu tinha de fazer um esforço grande para subir os degraus.”

“A casa toda exalava um cheiro nauseabundo horrível. Fedor de cemitério. Mas eu fiquei mesmo assustado quando vi na cozinha uma cesta repleta de pedaços de seres humanos. Braços, pernas, crânios...”

“(...) eu voltava do cinema quando me deparei com um deles, na esquina da São Francisco. Ele estava tão bêbado que quase não conseguia se equilibrar. Passou por mim, andando torto, equilibrando-se nos postes e aí desabou sobre um carrinho de feno. O veículo se espatifou com seu peso e foi feno para todo lado. A roda desceu em direção à Riachuelo. Imagine só a quantidade de cachaça que é necessária para embebedar um sujeito daquele tamanho...”

“Eu conheço uma costureira que cosia as roupas deles. Ela me disse que todas as peças tinham de ser exclusivas, e os braços chegavam a medir 120 centímetros.”

“(...) e a casa ainda está lá. Fica numa estrada de terra que cruza a Presidente Kennedy, perto da Igreja Ucraniana. Ela é de madeira, tão alta e disforme que parece uma capela. As janelas são tortas e os lambrequins possuem formatos muito estranhos.”

“Contaram-me que uma guria do Guabirotuba engravidou de um deles e acabou morrendo no parto. Mas o nenê, que nasceu com quase 6 kg e 80 cm de comprimento, sobreviveu. Não sei se o pai foi embora ou se vive, no bairro, escondido até hoje.”
“(...) não engulo aquela história de que um morador das imediações do Matadouro Municipal foi perseguido e pisoteado acidentalmente por bois. Que eu saiba tinha vários Potypos que moravam nas redondezas.”

“Lembro que na reconstrução da Praça Osório, enquanto os jardineiros da prefeitura aravam a terra dos canteiros, os maiores seguravam e implantavam as pequenas árvores. Hoje em dia elas já estão enormes e quase não dá para perceber o desenho geométrico dos petit-pavets.”

“(...) o repuxo era abaixo do nível do solo. Apenas vinte anos depois que foi instalado o coreto e o relógio. Os typos ajudaram a carregar os ripamentos e os caibros. Mas o relógio nunca chegou a funcionar.”

“(...) a carroça do colono passou por cima da criança e se o grande homem não tivesse tomado o controle das rédeas dos cavalos, a roda a teria esmagado! Você precisava ver o quanto a mãe da menina ficou agradecida. Aconteceu ali no Largo da Ordem.”

“Eu lembro que, numa das enchentes da Barão do Rio Branco, muitos deles ajudaram a desencalhar os carros. A rua virou um lamaçal. Munidos de cordas e correntes muito grossas, os gigantes tiraram os veículos do lodo.”

“(...) ajudavam a carregar as crianças. Seus corpos eram tão pesados que a correnteza não os arrastava. A Praça Zacarias ficou completamente alagada. A lama invadiu até mesmo a casa dos maçons.”

 “(...) eu estava lá no meio da Guerra do Pente1. Foi um fuzuê danado. Ninguém entendia o que estava acontecendo. As pessoas arremessavam pedras nas vitrines e chutavam as grades. Só depois fiquei sabendo que foi tudo por causa de um comerciante que não quis emitir uma nota. Vi alguns gigantes no meio da multidão, tentando apartá-los, separando os briguentos.”

“(...) e as mulheres, como eram muito fortes, carregavam as caixas de pentes, no alto, para que os vândalos não os alcançassem. No final do dia, ao atravessar a rua, via-se pentes de todos os formatos e cores, espezinhados, quebrados, na boca dos bueiros. Uma dó!”

 “Me falaram que eles foram morar lá pros lados de Ibaiti e Cornélio Procópio. Agora não lembro se ela disse Ibaiti ou Abatia.”

“Uma parente minha de Irati disse que foram vistos por lá, mas que caminham feito mendigos e dormem sob marquises das igrejas e supermercados. Falou que não há nada de assustador neles, que são até bem prestativos e alguns trabalham na lavoura.”

“Eu nunca vi gigante nenhum caminhando pela cidade. Para mim isso tudo é ficção. É como aquele causo de alienígenas que passou no rádio, e depois divulgaram que se tratava de uma história criada por um cineasta estadunidense.”

“(...) e só o que resta são desenhos. Pinturas borradas, rabiscos disformes. Acho muito estranho que não haja uma fotografia sequer. Custo a acreditar que algo aconteceu se não foi fotografado.”




1 - No dia 8 de dezembro de 1959, o Subtenente Antônio Tavares, da Polícia Militar do Estado do Paraná, comprou um pente pelo valor de quinze cruzeiros e exigiu o comprovante do comerciante libanês Ahmed Najar. Mas aí houve uma discussão. O comerciário negou-se a emitir a nota porque o valor era muito baixo e ainda fraturou a perna do oficial. Assim começou o conflito conhecido como "A Guerra do Pente".




(09/04/13)

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